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quinta-feira, 14 de setembro de 2017

No último domingo, meu colega de apartamento chamou-me para a casa de seu irmão. Naquele dia, lembro-me de ter ouvido "O que sobrou do céu" d'O Rappa aproximadamente três vezes. Em nenhuma me atentei em algo além de "Oh, lá lá, yeah."
Em casa, durante a madrugada de insônia, por coincidência uma das rádios daqui de Fortaleza reproduziu a música e pude enfim ouvi-la com atenção. Minha cabeça explodiu de surpresa e vergonha; surpresa por uma letra tão poética e de linguagem simples; vergonha pela minha subestimação, pois que é uma canção bem difundida.

"O que sobrou do céu", O Rappa, letra por Marcelo Yuka.

Faltou luz, mas era dia,
O sol invadiu a sala,
Fez da T.V. um espelho,
Refletindo o que a gente esquecia.

Faltou luz mas era dia,
Faltou luz mas era dia.

O som das crianças brincando nas ruas,
Como se fosse um quintal;
A cerveja gelada na esquina
Como se espantasse o mal.

Um chá pra curar esta azia,
Um bom chá pra curar esta azia.

Todas as ciências
de baixa tecnologia,
Todas as cores escondidas
Nas nuvens da rotina.

Pra gente ver
Por entre os prédios e nós,
Pra gente ver
O que sobrou do céu.

A primeira quadra comunica-se com a distopia de Huxley. Mesmo em "100 D.F.", o sistema preconizado de "prisão de prazer" é capaz de se realizar. O eu-lírico arremeteu que estava num longo período em frente à televisão quando caiu a energia. Porém, o sol "invadiu a sala/ Fez da T.V. um espelho", o narrador reconhecendo primeiramente a si, depois o mundo real que o cercava, através do reflexo da janela, porta, et cetera; mundo este que pode ter se modificado após o blackout, ou mantinha-se humano sem a percepção do narrador. Ao contrário dos habitantes de Admirável Mundo Novo, este meio é de ultra-individualidade, em vez de ultra-sociabilidade, mas também se conduz num consumismo alienador.
Um outro verso que se destaca: "Todas as cores escondidas/ nas nuvens da rotina." Ao sair do soma, ao contrário de Linda no livro citado, o letrista reconhece o "delírio com coisas reais".
Outra associação interessantíssima acontece nesta música: a analogia por rima. O primeiro verso termina com "dia" e a canção inteira tem esquema de rima flexível. Assim, no contexto musical, alguns dos termos que rimam com "dia" tornam-se sinônimos desta: "esquina", "ciências de baixa tecnologia" e "rotina". Isto acontece por causa de uma convenção em linguagem verbal na qual a semelhança de sons entre palavras transfigura a própria semelhança entre as coisas a que estas palavras remetem: "Amor é (rima com) valor". O máximo alcance deste artifício proporciona a paronomásia, pronunciada por Décio Pignatari em seu livro "O que é composição poética": "Aguiar é águia."
É preciso lembrar que, pelo fato dos poetas desenvolverem as linguagens de uso público e deste se apropriar destas mesmas linguagens nas relações diárias, é natural que haja poesia aos retalhos nas comunicações mais cotidianas. Deste modo, nenhuma mensagem pode ser menosprezada. Facilmente se vê vendedores ambulantes gritando intuitivamente em redondilhas menores, decassílabos, com aliteração, rima e o mais.
Marcelo Yuka promover esta mensagem com tamanhos processos em linguagem tão simples é-me invejável.
12 de setembro de 2017.