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segunda-feira, 11 de setembro de 2017

A sociedade contemporânea lê muito mais que antes, não somente no sentido quantitativo, mas também qualitativo, isto é: lê signos verbais, não-verbais e os associa cotidianamente.
A reparar nisto, basta notar a quantidade de rápidas informações de enésimos meios-de-comunicação em massa, como: portais de micro-notícias em supermercados, out-doors, logomarcas, slogans e etc. A palavra-matéria preconizada pelos concretistas foi gradualmente adotada pelos designers e serialmente consumida por transeuntes.
Porém, a alta velocidade cognitiva não se encerra nas ruas e vai às residências em forma de fetos-insights em redes-sociais como o Twitter, onde há o reconhecimento do espaço gráfico da mensagem e com ele (a descoberta de) uma nova dicção verbal, um novo humor, enfim, uma nova linguagem.
No entanto, o operário da linguagem poietes — ainda está nas fábricas do fim do século XIX com o seu morno direito de pensamento idealesco de poesia, muito embora livre dos grilhões formais, mas inutilmente repreendendo os pós-modernistas e operando, com a mais rasa de suas honras ultra-individualistas, no eixo Rimbaud-Leminski; acima de tudo, em monólogo, enigmático como hieróglifos que com raras decodificações de árduos arqueólogos linguísticos (lê-se: leitor) é compreendido.
Por meio das acertivas citadas, apresento o "verso ideogrâmico". Trata-se de uma relação acima de tudo, visual das palavras na estrutura do verso com hierarquia estabelecida, naturalmente o primeiro e último verbete da linha. A fim de ilustrar o método, eia um pastiche de "In a Metro State", Ezra Pound, onde há, com simplicidade, o procedimento.

"Boulevards"
Pessoas nas ruas entre árvores,
Folhas ao ocaso sem destino.

"Folhas", através da capitalização e de sua posição no verso relaciona-se mutuamente com "Pessoas" e "árvores", buscando provocar simultaneamente uma cena e uma metáfora. 
O mesmo efeito não pode ser alcançado se o poema for recitado, já que em estado sonoro, as palavras não apresentam ponderamento senão visuais. Porém, este último atributo ainda pode ser explorado nas relações visuais.

Trecho de "Far... falhar"
E a longa, longa paralisia
num mês, apenas,
que hei de transcorrer seis...
sentas na cama: há penas.

Apesar da forma, não opera como um verso linear e é, pois, um processo que não sustenta um longo-poema, mas assim como toda linguagem, a poesia é arte de fazer relações. Relações sonoras, verbais e visuais.
Se antes tínhamos na poesia tradicional processos linguísticos que operavam na lógica (contraste, hipérbole, ironia, etc.), temos agora, com muito suor desperdiçado, processos que operam na semântica e no campo visual (seja graficamente ou imageticamente): paronomásia (Leminski), palavras-cabide (Décio Pignatari), fanopéia [poesia que opera na imagem, metáfora ou analogia] (João Cabral de Melo Neto).
Imageticamente, pois que a informação contemporânea tanto rege em frases rápidas, como também trabalha com imagens de igual velocidade, importando-nos outra capacidade das palavras: sair do meio gráfico para o mental: eis a importância de se fazer cenas; uma lição a ser aprendida não neste breve comentário, mas com poetas espalhados no tempo e no espaço tais como os já citados J.C.M.N., E.P. e com haikus de Matsuo Basho, ou do próprio chinês, uma língua-pintura.
Entretanto, o ideal de uma poesia de nova sensibilidade reside na tentativa da palavra incorporar, concomitantemente, signo e significado.
23 de agosto de 2017.